Viva a Mãe de Deus e Nossa, ledores, a Senhora Aparecida. Amém. Amém. Que mais dizer a respeito da Mãe de Deus que já não tenha sido dito? Difícil. Porém, mais difícil é se conformar que tantos católicos se abstêm da devoção à Santíssima Virgem. Uma parte deles por falta de verdadeira formação catequética. Outra boa parte por se deixar influenciar por pensamentos protestantes. Respeito quem não crê, e desejo ser igualmente respeitado em minha fé. Primeiro: minha formação humana me leva a admirar a mulher que tão pronta e intensamente se entrega aos desígnios de Deus, dizendo "sim" para um projeto totalmente inédito e que mudaria radicalmente sua vida. Seu assentimento à proposta divina é de uma abnegação única, sem tamanho. Segundo: dizer "sim" já nem sempre é fácil, todavia manter essa resposta com fidelidade por toda a vida é ainda mais exigente. E com humildade sem tamanho reconhece sua história como fruto da bondade de Deus e não como recompensa de seu méritos humanos. É assim no Magnificat e durante a vida pública de Jesus. Seu compromisso se estende por toda a sua história, de tal modo que mesmo após a Ascensão de Jesus, ela permanece com os Apóstolos. Terceiro: sua vida, como a de qualquer ser humano, não esteve privada de incompreensões e de dores, haja vista a profecia de Simeão, o esquecimento do Menino no Templo, a fuga para o Egito, e a mais cruel de todas as situações, ver seu filho morrendo na cruz. Diferentemente, no entanto, da atitude que seria natural, ela não blasfema, não reclama, não se perde de si mesma. Confiante em Deus, ela guarda tudo em seu coração e espera pela resposta que apenas seu Senhor lhe poderá dar na hora que a Ele aprouver. É possível não venerar tal mulher? É possível menosprezar seu exemplo de vida? É possível ter fé e ao mesmo tempo não vislumbrar a História Sagrada se enrolando e tendo como co-protagonista essa jovem senhora? Se tudo não passasse de uma obra literária, Maria seria a "mocinha", fascinante e bela, perseverante e determinada ao lado do herói, o único e verdadeiro salvador da humanidade. Ledores, perdoem-me por cansá-los com minhas delongas. Hoje, contudo, sem as insignificâncias da maioria das demais postagens. Ainda há muito o que gostaria de escrever, por isso, com a graça de Deus, hei de voltar a este assunto. Beijo no coração de todos e que abençoadas sejam as crianças do mundo inteiro, hoje e sempre.
eNTÃO... Estou ouvindo "Amar é isso", da cantora andiraense Vera Lúcia. Nem sei a razão que me levou a redescobrir essa canção nesses dois últimos dias. Fato é que ao escutá-la, minhas reminiscências levam-me às tardes de quinta feira, nos anos iniciais da década de 2000. Como eram bons aqueles encontros e reencontros, regados a sorrisos, discussões críticas, aprendizados em tantas dimensões: eclesiais, comunitárias, afetivas, linguísticas, políticas. Na inocência de jovens estudantes distanciados da família, creio encontrássemos ali um ponto de apoio humano muito importante. Eram-nos como mães, irmãs, madrinhas, boas e confiáveis amigas. Sempre dispostas a acolher-nos com um sorriso nos lábios. Fosse assistir a um bom filme, ou gravar os show que estavam passando na sky, para fabricar e tomar vaca preta ou amarela, ou para apanhar, descascar e chupar as laranjas e mexericas do quintal, ou para merendar os foleados de frango e de presunto e queijo, ou ainda para oferecer-nos um almoço durante as férias... fosse para o que fosse, as portas estavam abertas. No meu caso, um diferencial: além de tudo o já dito, ainda havia os encontros para ler meus singelos e insipientes contos, ensinando-me o bom uso das conjunções, o significado de alguns termos, e ajudando-me a desenvolver a arte do uso das palavras escritas. Em uma dessas correções textuais é que descobri como orações reduzidas, quando bem colocadas, embelezam a mensagem e dão nobreza ao autor. Não há dedos para enumerar o tanto aprendido. O tempo nos imputou novos afazeres. Os compromissos nos colocaram em novos rumos. E as atas das tardes festivas tornaram-se raras. Seria ótimo lê-las agora. Rir rememorando as peripécias de gente feliz que se encontra, partilha de si, confraterniza-se, e se acaba mais feliz que antes. Nem sei, ledores, o porquê de ter lembrado da música e desses eventos. Sei que sem vínculos biológicos ou legais, sem afetos passionais e sem convenções legais, éramos uma grande família de cujos membros se respeitavam e se ajudavam. E o grupo se mantinha aberto para agregar novos membros. Tempos bons, muito bons, que mais do que saudades, deixaram valores. Deus abençoe a todos. Amém.
eNTÃO... A música pergunta "pra que rimar com nunca mais?". Embora desde criança ouça e me emocione com essa canção, só nos últimos dias tenho refletido mais a fundo sobre a beleza de sua letra. E conscientizo-me de que alguns amores exigem presença, já outros nos forçam a ausência. E há, sim, solidões que necessitam ser traduzidas. O que fazer então com o sentimento presente em nós? Com alegria ou com tristeza, com prazer ou com dor, é indispensável aprender a trabalhá-los, integrando-os à realidade que vivemos, para podermos então, alocá-los na melhor dimensão de nossa existência. Só assim estarão em nós sem nos amarrar ou prejudicar. Amar é realização e sacrifício! Por vezes, a maior manifestação de amor é estar junto. Noutras vezes, a maior manifestação de amor é ter a coragem de se ausentar.Pois só assim a pessoa amada conseguirá olhar o céu, alçar asas, e voar para mares que lhe aprazam mais e melhor. E mesmo sendo lugar comum, repito aqui o que poderia ser uma máxima piegas na qual acredito: "o verdadeiro amante encontra sua felicidade na felicidade do amado". Não ledores, não desejo com minhas reflexões de hoje desconstruir toda a afirmação da poesia musicada. Pelo contrário, ela sempre me inspirara romances eternos, onde mocinho e mocinha viverão felizes para sempre no final. Entretanto, concordemos que na vida real isso não é regra. Por fim, um de seus versos é, na minha humilde opinião, propício para qualquer situação: "em qualquer parte é triste um adeus". Beijos, ledores, com carinho e respeito, em cada coração.
eNTÃO... É madrugada. Estou sim muito cansado e ao mesmo tempo sem sono. Na TV, The Manhattans cantam "Wish that you were mine". Estou, como sempre, pensando na vida. Nas noites insones da juventude, quando ligava meu Yamaha PSR510 já depois da meia noite, quando todos dormiam, e tocava baixinho "vem espírito, sozinho eu não posso mais..." Tempos bons aqueles. Década de 90. Muita coisa mudou de lá pra cá: não toco mais teclado! Providencial que agora, a TV, me divirta com Chet Baker. Seu som me traz paz interior. Reflito sobre como é difícil julgar sem possuir parâmetros para tal. E me vejo forçado a admitir que vivi diversas situações inéditas no último biênio. Situações estas, para as quais meus parâmetros se me revelaram deficientes. A vida é maior que eu. O mundo é infinitamente maior do que o pouco que sei. E o humano é incomensuravelmente maior do que qualquer homem. Assim o existir conscientemente é sempre um salto no escuro. Por mais que se programe o amanhã, ele sempre será dono dele mesmo. Pode livremente fazer-se hoje, adaptando-se a nossos planos, ou, revoltosamente, impor-se contrário a nossos projetos. Cabe-nos lutar pelo que queremos, investir em nossos bons propósitos, buscar o bem almejado, e conquistar tão só aquilo que a história nos permitir. E o grande desafio na arte de viver é aprender a satisfazer-se, realizar-se, ser feliz, simplesmente vivendo. Encontrar no ser aquilo que se é a razão de ser, de existir. Atingindo tal serenidade interior, o sorriso tornar-se-á perene em nosso rosto, e um brilho especial jazerá eternamente em nossos olhos. Deus nos ajude a chegar lá. Amém. PS.: Ledores, usei advérbios demais, não? Perdoem-me o fato, por favor. Beijo em cada coração.
A verdade há? Certas horas desconfio que não. Algo tão sincero agora, minutos depois se mostra irreal.E então me pergunto se a vericidade nunca foi ou se em algum momento deixou de ser. Não tenho respostas. Talvez tais experiências sejam frutos da constatação de que tudo que nos certa é efêmero, inclusive as relações humanas. De ontem pra hoje, gostares se esvaziam em silêncio e solidão, conquistas tão almejadas perdem o brilho, esperanças se apagam, e novos brotos de vida, pessoas desconhecidas, e inéditas sementes inter-relacionais surgem, oferecendo rumos inéditos que podem ou não ser seguidos. Nosso tempo, tão raro e precioso, amiúde é desperdiçado, e quando nos damos conta, o que há de mais verdadeiro ficou pra trás. Cruel perceber que carregamos conosco sérias mentiras. Pior é ser forçado a admitir que ninguém no-las contou. Nós mesmos as criamos, investimos energia nelas, para, mais adiante, vê-las tombar por falta de alicerces sólidos. Que fazer? Desesperar? Claro que não, ledores. Insistir em viver é a decisão a ser tomada. Assumir os riscos e as consequências das escolhas realizadas é o mínimo que se espera de alguém com nobreza de alma e vergonha na cara. E se algo vai desvelar-se fugaz e falso amanhã, que pelo menos hoje, seja veraz em nós, para que, ao menos nós, não sejamos mentirosos, enganadores, falsos. Deus tenha misericórdia. Amém.
eNTÃO... Certa vez ouvi e desde então passei a repetir: somente um pertencente ao grupo pode compreender um membro do grupo. O tempo tem me mostrado que isso é muito verdadeiro. Claro que, respeitando algumas devidas exceções. O que quero dizer com isso? Somente um professor em sala de aula consegue entender as alegrias e tristeza de ser professor em sala de aula. Somente um vendedor ambulante pode compreender com alguma perfeição os gozos e agruras de passar pelas ruas gritando o nome de seu produto. Sim, um professor que passou a vida inteira em secretarias e direções não sabe o que é dar aula. Pode ter muitas teorias, falar bastante e bonito, todavia nem sempre com muita acertabilidade. É muito fácil teorizar sobre aquilo que se pensa conhecer. Mas calçar nossos sapatos não é pra qualquer um. E por "nossos sapatos" não falo exclusivamente sobre minha vida sacerdotal, mas me refiro também à sua vida, querido ledor. Ela é única, é sua, e nem todas as pessoas são capazes de compreendê-la. Diante das incompreensões é necessário que nos compreendamos a nós mesmos, que saibamos nossas reais motivações e ajamos com sinceridade de coração. Diante da falta de empatia, um bom diálogo e veracidade de atitudes podem construir muitas pontes. É tão bom sentir-se compreendido! Tão bom quando alguém se nos torna empático. Suspeitar que nosso mundo interior, embora inteiramente nosso, pode fazer parte do outro traz certa serenidade, pois nos tira da solidão de nós mesmos, e nos remete à certeza de que misteriosamente podemos ser acolhidos, respeitados e amados. Assim desejo que, ao menos nos grupos dos quais fazemos parte, entre as pessoas com as quais vivemos e convivemos, tais níveis de relação humana jamais sejam utopias, mas sim degraus que pouco a pouco nos elevam ao céu. Amém.
Estava eu há dez metro de altura, num andaime de construção, fazendo selfies. Não resisti a registrar essa imagem: a lateral de casa e a oficina nos fundos do quintal. Visto do alto, esse lugar parece outro. As árvores, do chão, não parecem tão verdes e tão copadas. E a residência, alta vista de baixo, parece pequenina quando olhada de cima. A beleza depende do ponto a partir do qual foca nossa vista? Fico refletindo sobre como a realidade pode ser relativa. O que uns vêm como lindo, outros simplesmente abominam. O maior sonho de consumo de alguém pode significar nada para outrem. O que me contenta pode ser pouquíssimo para vocês, ledores. E a vida é assim! Isso me remete para aquelas discussões das aulas de filosofia: "será que o verde que vejo tem o mesmo tom do verde visto pela pessoa a meu lado?". Talvez não. Paciência. Pior é reconhecer que algumas realidades são simplesmente invisíveis para alguns. E por mais que se explique, mostre, ou desenho, há quem seja incapaz de compreender. Suspeito tratarem-se das chamadas "ignorâncias invencíveis" de que nos escreveu São João Paulo II. "Ponto cego" é, também, uma expressão para nomear tal qualidade humana. O ponto cego é aquela região do carro que os retrovisores não mostram, ou aquela dimensão da rua que a estrutura do veículo não deixa ver. Por causa destes pontos cegos muitos acidentes acontecem. E não podemos negar carregarmos conosco alguns, quando não muitos, pontos cegos. Ledores, sejamos sinceros. Há o que não conseguimos entender e aceitar. E há também o que, definitivamente, não queremos aceitar ou compreender. Nem sei o que é pior: a incapacidade ou a negação. Na verdade, ambas são limitações de nossa alma. Todavia, enquanto uma é um limite, por ventura, inato, a outra é pura obstinação. Fico pensando nessas ignorâncias invencíveis e tentando encontrar as minhas. A Amazônia me ajudou nisso. Amém. Aleluia. Oxalá consiga encontrar alguma própria vencibilidade nessas invencíveis situações e, a partir delas, melhorar alguma coisa no automóvel que sou eu. Deus nos ajude a todos. Bjs.
Ontem fez um ano que deixei Eirunepé. Ledores, essa data estará gravada em minha memória ainda por algum tempo, mas depois, creio que a esquecerei. Qual seu significado? Nem sei se consigo explicar. Mas penso minha vida estar marcada de muitas formas pelos dias vividos lá. Quero citar apenas três. Vamos lá... Na primeira tem destaque a experiência do limite. Não consegui permanecer por lá durante o tempo que se havia predeterminado. E minha desistência faz-me sentir o sabor da derrota. Na segunda tem destaque a experiência da coerência. Permanecer lá seria apostar no exercício de um ministério sacerdotal incoerente com o ministério buscado por mim. E isso me mataria aos poucos. Na terceira forma a citar tem destaque a experiência de fraternidade. Talvez, cinquenta dias em que lá estive, fiz mais contatos fraternos que em seis meses em Guajará. E de algumas almas boas, companhias musicais, jovens liturgistas, agentes de pastoral carcerária, preciso admitir sentir certa inquietação ao refletir sobre o que poderíamos ter feito juntos se eu tivesse ficado.
Perdão, ledores, por ficar contando fatos desinteressantes. O melhor é fazer reflexão. Vamos tentar então. Na vida, desencontros podem ser fonte de bons encontros. Tudo o que me levava a crer ser minha presença em Eirunepé desconforme a meu projeto de vida levou-me a rever tal projeto e a firmar o que me realmente era importante dele. Redescobri a mim mesmo, a minha vocação, ao caminho que naquele momento eu precisava trilhar. Essas coisas me levaram a Marechal Thaumaturgo. E disto não me arrependo. Admito, todavia, que os dias que precederam e que sucederam à decisão de pedir pra sair foram sofridos. Dói reconhecer não ser a pessoa certa. Surpreendi-me e magoei-me com o jeito de o pedido ser, a princípio, rejeitado. Triste e solitária foi a saída. Mas hoje, um ano depois, recordo-me sem abatimento. Passou. Acabou. Sobrevivi, graças a Deus. E algumas coisas aprendi. Eis o mais importante, de alguma misteriosa forma, cresci. Não lhes desejo, ledores, crises, sofrimentos, decisões difíceis a tomar. No entanto, se um dia tiverem de enfrentar tais situações, que lhes sirvam de aprimoramento humano, e os leve à santidade. Amém.